Certa vez, teve a visão de um esplêndido palácio, em que encontrou toda sorte de armas e uma noiva belíssima. Foi assim que, uma noite, estando a dormir, alguém lhe falou pela segunda vez em sonhos, interessado em saber para onde estava indo. Contou-lhe seus planos e disse que ia combater na Apúlia, mas foi solicitamente interrogado por ele:
- “Quem te pode ser mais útil: o senhor ou o servo?”
- “O senhor”, respondeu Francisco.
E ele: “Então, por que preferes o servo ao senhor?”
- “Que queres que eu faça, Senhor (cfr. At 9,6)?” perguntou Francisco.
E o Senhor responde:
- “Volta para a terra em que nasceste (cfr. Gn 32,9), porque é espiritualmente que vou fazer cumprir a visão que tiveste”.
Segundo chamado Divino
Caminhando fora da cidade, viu um leproso vindo na sua direção, ficou apavorado, pois tinha horror desta doença, quis fugir, mas manteve-se firme, dirigiu-se ao doente, beijou-lhe as mãos e o rosto, em demonstração de afeto e encheu-lhe a bolsa de moedas, com generosidade. Ao retirar-se voltou-se para ver o estranho, mas o homem desaparecera misteriosamente. São Francisco costumava orar numa velha e abandonada capela, São Damião, frente a um crucifixo repetia fervorosamente: “Concedei-me Senhor, que Vos conheça, para poder agir sempre segundo a vossa luz e de acordo à vossa Santíssima vontade”.
Terceiro chamado Divino
Um dia, orando nas ruínas da Igreja de São Damião, ante a imagem do Cristo Crucificado, pareceu-lhe ouvir claramente: “Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Restaura-a para mim!”. Pensando tratar-se do velho templo onde se achava, agiu de pronto.
São Francisco começa a restaurar a Capela de São Damião e a cuidar dos leprosos. Ora e trabalha incessantemente, dizia: “O trabalho, embora humilde e simples, confere honra e respeito e sempre será um mérito ante Nosso Senhor”. Seis anos mais tarde, a capela restaurada será o lar das Damas Pobres de Santa Clara.
Restaura a igreja de Sta. Maria de Anjos (porciúncula). (A pequena igreja, onde Francisco faleceu, ainda é preservada até os dias de hoje no interior da grande Basílica de Santa Maria dos Anjos. Restaura também a igreja de São Pedro. Persuadido de que sua missão principal era a de restaurar e construir igrejas zelava ardentemente pelos lugares em que se celebravam os Santos Mistérios. Um dia, na missa de São Matias, escuta o Evangelho sobre a Missão Apostólica. Se sente tocado e passa então a caminhar pelos povoados pregando a palavra de Deus de maneira simples e passa a viver de esmolas.
Fundou em 16 de Abril de 1209, com doze discípulos, a família dos doze irmãos menores, que viria a ser conhecida como a Ordem dos Frades Menores. Os primeiros irmãos que recebe são:
- Frei Bernardo de Quintavalle, que será mais tarde seu sucessor, homem de grande fortuna que abandona tudo para seguir São Francisco.
- Frei Pedro Cattani, cônego e conselheiro legal de Assis, homem de esmerada cultura, instrução e dotado de grande inteligência.
- E o irmão Leão, que será sempre e em todas as horas fiel companheiro.
Com 11 irmãos vai a
Roma, levando uma breve Regra. O
Papa Inocêncio III admirado, ouve sua exposição do programa de vida, mas com regras tão severas fica indeciso e decide esperar para aprová-las oficilmente. Em sonho, o Papa teve uma iluminação sobre a missão destinada por Deus à Francisco (e diz-se que este Papa foi enterrado com vestes Franciscanas). As regras são então aprovadas. Um rancho abandonado, próximo de um leprosário na cidade de Rivotorto, próxima à Assis foi a primeira casa dos irmãos Franciscanos.
O espírito de renúncia e sacrifício que deveria existir na vida de seus filhos espirituais, um servo de Deus não podia manifestar tristeza, desânimo ou impaciência. Na alegria, o Santo via a fortaleza da alma cristã. São Francisco orava e trabalhava sem cessar, assistia as viúvas, às crianças famintas e a todos os excluídos, fosse no campo, nas cidades ou nos mosteiros. Orava intensamente pela conversão dos pecadores, proclamava a paz, pregando a salvação e a penitência para remissão dos pecados, resolvia conflitos, desavenças, estabelecendo sempre a harmonia em nome do Senhor. Compreendia a dor e o sofrimento, pelo amor a Deus. Considerava-se um pecador, o mais miserável dos homens, vivia em penitência e
jejum, renunciava às todas as comodidades. Dizia sempre a virtude da moderação deveria imperar dentre os irmãos, para assim poder melhor servirem a Deus.
O Santo chama os irmãos de “Frades Menores” porque sempre serão pobres e humildes. Desejava que fossem puros e livres das coisas deste mundo e tivessem o coração e a mente dominados pelo desejo de Deus. Adotaram como trajes o vestuário dos humildes: uma túnica grossa de lã, amarrada por uma corda na cintura, e sandálias. Suas humildes túnicas amarradas por um simples cordão levam até hoje três nós que significam seus votos: Pobreza, Obediência e Castidade. A sua missão consistia em praticar e pregar simplicidade e amor a Deus e a caridade cristã.
Em 1213, recebem por doação de um conde o monte Alverne, que serviu de eremitério, retiro e oração. E onde São Francisco recebeu no fim da vida os sagrados estigmas. Em 1215, no Concílio do Latrão conheceu São Domingos de Gusmão fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e recebem do
Papa Inocêncio III, em
Roma, no ano de
1215 a incumbência de um trabalho gigantesco para a glória de Deus e salvação das
almas.
Obtém do Papa Honório III em 1216, a pedido do próprio São Francisco uma Indulgência para a Igreja de Santa Maria dos Anjos. A partir de então, todos os anos, a começar do meio-dia de 1º de agosto até a meia-noite do dia 2, é possível lucrar a indulgência para si e para os defuntos na Porciúncula ou numa igreja paroquial ou franciscana, com a condição de confessar-se, participar da Eucaristia, rezar o Credo, o Pai-Nosso e uma oração segundo as intenções do Papa.
São Francisco vai de navio a Marrocos, no Egito atravessa as linhas inimigas e vai ao acampamento do Sultão do Egito Melek el Kamel, guerreiro temido pela sua crueldade, que comandava as forças Muçulmanas nas Cruzadas contra os Cristãos. O Sultão fica surpreso com o audaz visitante, mantém longas conversas com ele e pede para que fique ali. São Francisco responde: “De bom grado fico se te convertes ao Cristianismo e pedes o mesmo ao teu povo”. Por suas Santas Missões, orações e obras de caridade no Oriente, os Frades Menores ganharam a custódia do Santo Sepulcro em Jerusalém, obra que causa admiração aos cristãos do mundo inteiro. Francisco pede a Santo Antônio de Pádua, que ensine Teologia aos frades mas que não se apague o espírito da oração e devoção como mandava a Regra.
Na sua humildade, buscava unir-se sempre mais a Deus, desejando a confraternização de todos os seres, sem distinção de raça, credo ou cor. Ele repetia: “Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final.” . Pobres e ricos, poderosos e humildes, rudes e letrados entravam em grande quantidade para a Ordem.
Frei Elias fica sabendo em sonhos que São Francisco só terá mais dois anos de vida. Conta-se que quando ia para o Eremitério, na longa caminhada de Assis ao monte Alverne, o pobre homem que levava Francisco em seu jumento, lastimava-se dolorosamente: “Estou morrendo de sede, se não beber água vou morrer!”. O Santo compadecido e vendo o lugar tão árido, composto só de pedras e cascalho, desceu do jumento e ficou em fervorosa oração, disse ao homem: “Corre para trás daquela pedra, ali encontrarás água viva, que neste momento Cristo com sua força, misericórdia e poder fez nascer”.
No monte Alverne falou aos irmãos: “Sinto aproximar-me da morte e desejo permanecer solitário, recolher-me com Deus para lamentar meus pecados”. O Frei Leão contava que muitas vezes viu São Francisco em êxtase adorando a Deus em visões celestiais. Em uma oportunidade viu que São Francisco falava diante de uma resplandecente chama, outra vez disse que viu o Santo extrair algo de seu peito para oferecer a Deus. O Frei Leão perguntou depois a São Francisco o que significava aquilo, e ele respondeu:
“Meu irmão, naquela chama que viste estava Deus, o qual daquela maneira me falava, como antigamente o fez com Moisés, e entre outras coisas me pediu para lhe oferecer três coisas, e eu lhe respondi: Senhor meu, Tu sabes bem que só tenho o hábito, o cordão e uma pobre veste e ainda estas três coisas são Tuas, que posso, pois Te oferecer Senhor?”
“Então Deus me disse: Procura no teu peito e oferece-me o que encontrares. Levei a mão ao coração e encontrei uma bola de ouro e a ofereci a Deus e assim fiz por três vezes, segundo Deus me ordenara! Imediatamente pude compreender que aquelas três oferendas significavam: a Santa Obediência, a Altíssima pobreza e a Esplêndida Castidade”.
Noutra ocasião o próprio São Francisco, ainda deslumbrado, contou a Frei Leão que viu-se cercado de inúmeros anjos, um deles tocava em delicado violino uma maravilhosa música e que se o anjo continuasse com os acordes da celeste melodia, ele certamente teria deixado a vida terrena, para participar das harmonias eternas. Na solidão em que desejou ficar, também teve momentos de difíceis provações. Nos estados contemplativos, eram-lhe revelados por Deus, não somente coisas do presente, mais também do futuro, assim como, por exemplo, as dúvidas, os secretos desejos e pensamentos dos irmãos.

Frei Leão numa hora amarga quando sofria tentações, recebeu uma preciosa bênção para qualquer doença do espírito. Uma
bênção assinada com um simples
Tau, que representa o símbolo da cruz, o amor a Cristo, também é o signo dos que são amados por Deus, São Francisco tinha grande veneração por este símbolo e nas suas cartas assinava com ele. Tau é a transformação, o equilíbrio, o trabalho, a conversão interior que o homem deve sofrer para unir-se às coisas superiores.

São Francisco amava tanto o Cristo crucificado que pediu ardentemente duas graças: que antes de morrer pudesse ele mesmo sentir na alma e no corpo o amor e o sofrimento da paixão.
O Santo de Assis alcançou essas duas graças. Ele pode ver no céu, um Serafim todo resplandecente de luz que se lhe aproximou e então recebeu os estigmas de Cristo, transpassando-lhe os pés e as mãos. Isto se deu em 14 de Setembro de 1224. São Francisco retorna a Sta. Maria dos Anjos, muito doente e quase cego, muitos foram os milagres realizados com seus estigmas. Sabendo-se próximo da morte, lança uma bênção sobre Assis, compõe o “Cântico ao Sol” e dita seu testamento. Fez ler o Evangelho e na Última Ceia abençoa seus filhos espirituais presentes e futuros. Francisco morre, rodeado de seus Filhos Espirituais. Foi sepultado na Igreja de São Jorge na cidade de Assis. E foi canonizado pelo próprio Papa Gregório IX no dia 16 de Julho de 1228.
São Francisco sempre foi um grande devoto da Santíssima Virgem Maria, prestou-lhe sempre homenagem. Foram os Franciscanos os promulgadores da devoção da Imaculada Conceição, dogma promulgado em 1854. A virgem Maria representava para São Francisco as portas do céu, ela lhes oferecia o diurno auxílio na senda espiritual.
Nos ensinamentos do Evangelho encontrava o apoio para aliviar a dor de aquelas almas que em desespero acudiam a ele, e através da sua fervorosa oração operou grandes milagres.
Ele dizia: “Tudo o que faço é Nosso Senhor que me guia”. Sua alma pura e cristalina aparecia aureolada de luz e ao igual que o Apóstolo Paulo repetia: “Já não vivo eu, é Cristo que vive em mim”. Conta-se que estando ante uma visão divina, dizia humildemente: “Senhor Deus, que será depois da minha morte, da tua pobre família, que por tua benignidade foi entregue a mim pecador? Quem a confortará? Quem a corrigirá? ou Quem rogará por ela?
Prometeu-lhe o Senhor que seus filhos espirituais não desapareceriam da face da terra, até o fim dos tempos, grandes graças do céu receberiam os religiosos da Ordem que permanecessem na prática do bem e na pureza da Regra. Os frades Franciscanos já existem há mais de 800 anos.
As Ordens Franciscanas
Três ordens se articulam a partir da orientação de São Francisco:
- À Ordem Primeira, dos Frades Menores - fundada em 1209, incumbia o apostolado de seguir os passos do nosso Senhor Jesus Cristo e de exemplo de obediência para a Igreja.
- À Ordem Segunda, das Pobres Damas - fundada em 1212, cabia o sacrifício, a oração e zelar pelo amor a Deus no Claustro.
- À Ordem Terceira, dos Irmãos da Penitência - fundada em 1221, conhecida atualmente como Ordem Franciscana Secular, destinaria a missão de reavivar nas consciências a honestidade dos costumes e os sentimentos Cristãos de paz e caridade. Esta ordem é composta por homens e mulheres leigos que buscam em seu cotidiano levar a todos estes sentimentos, almejando a perfeição de vida Cristã sem abandonar a própria família ou renunciar às suas propriedades.
“Carta aos Governantes dos Povos”
São Francisco escreveu:
A todos os podestás, cônsules, juizes e regentes no mundo inteiro, e a todos quantos receberem esta carta, Frei Francisco, mísero e pequenino servo no Senhor, deseja saúde e paz.
Considerai e vede que “se aproxima o dia da morte“(Gn 47,29). Peço-vos, pois, com todo o respeito de que sou capaz que, no meio dos cuidados e solicitudes que tendes neste século, não esqueçais o Senhor nem vos afasteis dos seus mandamentos. Pois todos aqueles que o deixam cair no esquecimento e “se afastam dos seus mandamentos” são amaldiçoados (Sl 118,21) e serão por Ele “entregues ao esquecimento” (Ez 33,13). E quando chegar o dia da morte, “tudo o que entendiam possuir ser-lhe-á tirado” (Lc 8,18). E quanto mais sábios e poderosos houverem sido neste mundo, tanto maiopulta “tormentos padecerão no inferno” (Sb 6,7).
Por isso aconselho-vos encarecidamente, meus senhores, que deixeis de lado todos os cuidados e solicitudes e recebais com amor o santíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ocasião de sua santa memória. Diante do povo que vos foi confiado, prestai ao Senhor este testemunho público de veneração: todas as tardes mandai proclamar por um pregoeiro, ou anunciai por algum sinal, que todo povo deverá render graças e louvores ao Senhor Deus Todo-Poderoso. E se não o fizerdes, sabei que havei de dar conta perante vosso Senhor Jesus Cristo no dia do juízo.
Os que levarem consigo este escrito e o observarem saibam que serão abençoados por Deus nosso Senhor.